27/01/2012

Livre Só Zeus


Livre Só Zeus

feriuntque summos fulgura montes - Horácio

o teu jejum de promessas
atordoou-te · evitas nomear
porque estás rouca · quem assume
a fiança? esqueces-te que a voz dos mortos
é uma flor na corrente do rio
que a neve tapa
a própria neve
e que o profeta se disfarça sempre
do que diz que não

mas partilhas dos mesmos sonhos justos
do ateador
que espera pelo segundo certo para electrocutar
as nossas palavras até às raízes
pelo momento em que os heresiarchas
naufragados no Adriático da tua expectativa
te rasgam a voz
e te rasgam a luz

no instante pressagiado em que voltamos
como os gregos
a dividir a alma em três
e descobrimos aquele terceiro que nos
persegue demoníaco
protector
no momento em que nos apercebemos que o nada
é feito do mesmo mármore do templo de Aphrodite
em Corintho
a nossa angústia acaba
e renasce


Miguel Monteiro

24/01/2012

História das Calamidades - De Deo; De Natura; De Homine


§1
há uma palavra —um étymo (do grego: uma verdade)— que surpreende pelas contradições e paroxismos que fazemos depender da forma particular que dela utilizados: τ συμφέρον, o útil, o conveniente, quase como sinónimo de τ φελλον, o beneficiente, prestável, benfazejo. com esta palavra aliamos o verbo temporal συμφέρω, vulgarmente na forma impessoal συμφέρει, auxilia, junta, calha, convém, no sentido de duas coisas que estão bem uma para a outra e que portanto se juntam. desta palavra origem recebe uma outra, συμφορά, que no sentido imediato poderia ser apenas uma mera nominalização do dito συμφέρειν, não se desse o caso de, como qualquer pessoa que já pegou numa tragédia grega na língua original poderá bem atestar, συμφορά obter uma lógica nefasta: imediatamente συμφορά é a desgraça, é a calamidade, o infortúnio, já não aquilo que se junta (συμφέρει) porque πρέπει (porque se adequa) mas sim porque há alguma atração fatal enter o humano e a sua aniquilação, entre a felicidade que atrái a cólera, o magnetismo dos deuses vingadores, para os quais então de facto συμφέρει (é prestável) destruir-nos completamente, até ao último rasgo de sombra. συμφέρει, ajunta, é verdade, mas a quem? tal como a palavra latina simultates, a presença simultânea de dois, não é uma comunhão fraterna mas sim algo destruidor, assim também a συμφορά nos junta a nós e à morte, mas também a nós e aos deuses, na medida em que a nossa excessiva felicidade é o único engodo que temos à disposição para atrair os deuses que fogem, embora bem saibamos que tudo o que temos sacrificamos por esse instante em que nós e eles somos trazidos juntos e eles nos destroem. a desgraça, a συμφορά é o momento nítido do terrível olhar da divindade que já não desdenha destruir-nos.

§2
quando Thrasýmaco diz que τ δίκαιον τ το κρείττονος συμφέρον, não percebe o que diz e percebe. a justiça é a conveniência do mais forte. a justiça é o momento de encontro do mais forte consigo próprio, o momento em que tem o que merece, mesmo enquanto excluímos a helenicamente bizarra paixão pelo Juízo Final e pela novíssima aniquilação das almas. τ συμφέρειν é o momento em que os poderosos são postos à prova, e no qual contemplam nos olhos o deus do gesto. o momento em que ousamos arriscar tudo assentando sobre o nosso próprio valor é simultaneamente o instante da nossa glória máxima, da humanidade, e da virtude — dos vitia splendida – e ao mesmo tempo da συμφορά, do esmagamento por necessidade justo da nossa condição face à face ardente do deus que vive e é a Morte. os gregos conheceram-no sob muitas faces, sob sempre máscaras dúplices de esperança e de violência. conheceram-no sob a máscara da βρις, essa maior das helénicas ρεταί, esse amor erga vitam que apenas honra a mesma vita condenável, essa adpaixão que é a do Príncipe de Marrocos que ousa escolher o cofre do qual “Who chooseth me shall get as much as he deserves”, que se lança de cabeça para a frase de Unamuno, “se é preciso que morramos, temos ao menos que fazer com que isso seja injusto”, isto é, aceitar a συμφορά com olhos de quem percebe que isso não συμφέρει, aceitar o fogo na face de Deus e não desviar o olhar. conheceram-na ainda pela máscara de Sócrates, o demónio do Amor, o terror dos injustos — e convirá aqui lembrar que já no pensamento platónico e clássico os demónios são os entes que mediam entre “a outra terra e o outro céu”, sendo o amor a obra demoníaca por excelência, que dois entes liga, e que esta demonologia pagão de mensagem foi mantida até ao século IV, onde a sua cristianização por Pseudo-Dionísio Aeropagita transformou estes συμφέροντες, estes mediadores, estes demónios do espaço, naquilo que o cristianismo chamará anjops, anjos portanto que συμφέροντες τν συμφορν φέρουσιν, que juntam o que deve estar junto, a desgraça ao desgraçado · a intuição de Rilke já se entende: todo o anjo é terrível. E Sócrates do outro lado, unificador, criatura do silêncio e deus-patrono da adequação, que nunca hesita em pronunciar as aquém-palavras de maneira demasiado inaudível, apenas o bastante para se vislumbrar a catástrofe e pressentir a συμφορά prometida da justiça terrena, do mundo a ferro e fogo, da imanentização da calamidade das palavras para as almas. 

§3
há alguma coisa de inerentemente contraditório na existência de escritos mýsticos. como diz John Caputo, “tendo em conta que passam tanto tempo a dizer que o que narram é indizível, os mýsticos realmente falam que se fartam.” seja qual for a profissão de fé da mýstica em questão, todas aparentam almejar a uma tendência máxima, à qual nos habituámos a chamar unio mystica, experiência que seria a conjunção suprema entre o experimentador e o divino, em que se assemelhariam de tal forma um ao outro que deixaria de zer sentido falarmos de nós verbalmente: a unio mystica é também the annihilation of the self, em que a adequação gigantesca funde os dois num, de tanto que συμφέρουσιν um com o outro: isto sim é justo, isto sim é belo, e o summo bem talvez. o que implica esta união porém, o que fazemos com o comungar da alma — o comunicar da alma com o divino? destruimo-nos é certo, e isso poderia ser a temer, não fosse precisamente isso que buscássemos, o prescindir de nós para nos centrifugarmos em Deus. mas há que prescindir da amizade e da beneficiência em prol da faculdade de ver mais claramente. destruimo-nos a nós mesmos, é vero, mas destruimos de igual forma o deus que nos recebe, o qual violentamos até que nos aceite como a si: o deus, o mar imenso, é obrigado à força a aceitar-me como em si, e eu nele: mas já não sou em que vivo; nem vive ele.  no meio, onde nós somos e éramos, um Vazio. foi esse συμφέρειν que levou à maior possível das συμφοραί, como se apercebeu Nietzsche, que esse maior dos ateus Eckhart percebeu quando falou da mýstica suprema para além do êxtase, para além e depois daquele momento em que atingimos o Pai e o Filho, e em que neles somos já Um, e ousamos corajosamente ainda mais seguir virtute e canoscenza, mesmo que para isso tenhamos que prescindir do próprio deus para que o lançarmo-nos contra o o mundo, suas criaturas e criador, seja tão imenso que dele demos mão, e no desprezar amoroso de tudo o que se adequa por excelência completemos a nossa historia calamitatum.

10/01/2012

Nathaniel


Nathaniel
Ian McLachlan
in Mimesis 2 Summer 2007

Part 1

i

Nathaniel, acrobat,
Zen student, poet,
spiritual warrior,
perhaps. Some say
angel. Let us see.

ii

January.
Hunting Nathaniel.
In the snow I find foot-prints.
His?

iii

There. He inhales,
bends, raises
a hidden weight,
breathing out,
lowers it. In
a nearby barrel's
liquid depths,
the moon.

iv

My cell phone chimes.
Jean. Where am I?
I lie. Watch him
raising the moon.

v

Back late, he
takes a shower,
does Mantis press-
ups, fixes a snack,
meditates. These
in no special order.

Part 2

i

In their concrete tower
Shell's directors inspect
a map, wish to turn his
back yard into a mall,
gym in the basement
for city drones. Now,
Nathaniel, atop a wall,
180 Cats to a ledge,
his muscles, packed.

ii

Taken from Nathaniel's journal ...

Fundamentals:

1)
2)
3)

iii

A glow in the city,
Nathaniel, in white
trainers, enters
a throbbing club.

I heard
he never sleeps
with the same girl
twice.

iv

Cue chalked,
he rolls up
a chequered sleeve,
takes a long pot.

Hush.

On his arm,
new scars.

Part 3

i

Down Cat Alley,
easy-limbed, alone,
he runs.

May morning,
London, his.

Boats tied up
on the Thames'
bank creak –
a rusty lullaby.

He passes
a Starbuck's.

Nothing on
his mind
but running.

Reaching
a flight of steps

he leaps.

ii

Who is Nathaniel?
Who does he see
when he jerks off,
fold his arm round
before sleep?

iii

Top deck, sweet-
flowered cannabis,
misted windows,
worn seats. No
stars tonight.

Part 4

i

Three perch
on a branch.
More below,
sun-bathing,
sharing cider,
weed. An I-
Pod wired to
speakers hums:
Time Will Tell.
To the youngest,
the one who
wants to join in,
isn't sure how,
he speaks.

ii

It's said the closer you come
to God, the more it hurts.

He tramps the summer street,
in a sleeveless vest. Big cat,

small town. He brushes past
strangers, whistling. How much

does he hurt? Now, slipping
by him, we make eye contact,

I think. His sunglasses flash.
He's gone. He's smoke.

iii

'Try this,' he says –
a one-handed hand-stand.
The world upside down.
A rush of blood to the head.
Nathaniel, you bastard!
How did you get so free?

iv

A park sit-up bench,
staring up at blue sky.
He curls a hand round
the bench's cool iron
bar and busts clouds.

Part 5

i

Urban myth, I want you
dead. Your perfection is

my crucifix. Nathaniel,
you've stolen too much

airtime. How can I exist
where you are?

ii

Both lanes blocked
on the escalator.
By the handrails,
barriers. Nathaniel,
confined, losing
his cool. Why think
we'll let you by?

iii

At the gig,
Nathaniel,
downing JDs.
Girls want him,
but he didn't
get where he is
by taking easy
bets. Besides,
someone told me
he wasn't that
way inclined.

iv

Cocaine, cut
in the bathroom,
loosens tongues.
Fallen into a well,
he's speechless.

Part 6

i

Delicate as rice paper,
easily torn,
he comes unfixed
from a hoped-for love.

I watch it happen.

Part 7

i

Rooftop. Gunshot.
Doves spray upwards.

This close to death.

Nathaniel, swarming
down a drainpipe.

11.23pm.

He's swearing,
spitting teeth.

Did he recognise
the assassin?

ii

He has been to Rome,
questioned
the philosophy students
in their black
trench coats,
talked with the African
street-hawkers
who greet passers-by
with ivory smiles –
'Ciao, bello!'

By the Fall,
he's in LA.

iii

Enough of Nathaniel.
Who am I?

A butterfly catcher.

iv

Bearded, in the ocean,
I watch you play with a child,
carry him up a blonde dune,
spade sand with him, buy
ice creams. Is it true
you have a son?

Part 8

Epilogue

Sun through the blanket,
muted on the white walls
& Marshall amp. Street-
heat, bike, sometimes I fall.
By pale blue sea I remove
my shoes, touch the water.
Look. A skater-girl flips,
flags snap, seagulls stagger
the breeze. Easy to lose
balance, the air half free.
Later, I'll make a fire.

06/01/2012

Mediocrity leads no theological life whatsoever.

Thomas MannDoctor Faustus. John E. Woods (trad). Vintage International: Nova Yorque (1999)
I: " [...] You depend upon my pride's preventing me from the remorse necessary to salvation, yet do not make account of there being a prideful remorse — that of Cain, who was of the fast opinion that his sin was greater than could e'er be forgiven him. Contritio without hope and as utter unbelief in the possibility of grace and forgiveness, as the sinner's deep-rooted conviction that he has behaved too grossly and that even unending goodness will not suffice to forgive his sins — only that is the true remorse, and I would remember you that it is to redemption most proximate, to goodness most irresistible. You will admit that grace can have only a workday concern for the workaday sinner. In his case the act of grace has little impulsion, is but a dull enterprise. Mediocrity leads no theological life whatsoever. A sinfulness so hopeless that it allows its man fundamentally to despair of hope is the true theological path to salvation." 
He: "Sly cap! And where will the likes of you find the simpleness, the naive candour of despair that were the presumption for this hopeless path to salvation? Is it not clear to you that purposed speculation on the charm that great guilt exercises upon goodness renders the very act of its grace utterly impossible?" 
I: "And yet it is only by means of this non plus ultra that one arrives at the highest enhancement of dramatically theological existence, which is to say: at the most reprobate guilt and, through it, at the last and irresistible provocation of infinite goodness." 
He: "Not bad. Truly ingenious. And now I shall tell you that precisely minds of your sort constitute the population of hell. It is not so easy to enter into hell; we would long since suffer a want of space if every Tom and Tib were let in. But your theological type, such an arrant desperado who speculates upon speculation, because speculation is in his blood from his father's side — if he were not the Devil's, why 'twould surely be old craft."

Tyranny and Wisdom

The sixth International Forum of Philosophy in Maracaibo, Venezuela, is where philosophers from four continents were invited to discuss "State, Revolution and the Construction of Hegemony". The event was inaugurated by the vice-presidents of Venezuela and Bolivia, televised by several channels, and on the last day, a prize of $150,000 was awarded to the best book presented within the Libertador Award for Critical Thinking of 2011.

Fonte: Aljazeera.

02/01/2012

une tentation infiniment pire

Ce ne sont plus seulement les tentations qui nous assiègent, mais ce sont les tentations qui triomphent; et ce sont les tentations qui règnent; et c’est le règne de la tentation; et le règne des royaumes de la terre est tombé tout entier au règne du royaume de la tentation; et les mauvais succombent à la tentation du mal, de faire du mal; de faire du mal aux autres; et pardonnez-moi, mon Dieu, de vous faire du mal à vous; mais les bons, ceux qui étaient bons, succombent à une tentation infiniment pire: à la tentation de croire qu’ils sont abandonnés de vous. Au nom du Père, et du Fils, et du Saint-Esprit, mon Dieu délivrez-nous du mal, délivrez-nous du mal.

Charles Peguy. Le Mystère de la charité de Jeanne d’Arc. Aqui.